Em 13 de maio de 1888, assinou a Princesa Isabel a Lei Áurea, dando fim a escravidão no Brasil. Uma época difícil aqueles tempos, difícil para os homens e mulheres que com seu trabalho, suor e sangue construíram a grandeza do nosso país. Época de perseguições, açoites, danças e cultos proibidos, tendo que serem disfarçados no sincretismo religioso.
Há 120 anos, senzalas foram abertas, troncos que guardavam o ódio, a dor e lágrimas foram abandonados, alguns queimados. Uma palavra, antes só sonhada, erguia-se em grito forte elevado aos céus e levado pelo vento, um grito que se traduzia na palavra: LIBERDADE.
Do brado desse povo, vindo das terras africanas, nasceu nossa cultura. Uma cultura rica, variada, colorida, pincelada de contrastes e tão versátil e agregadora quanto a miscigenação da formação do povo brasileiro.
Porém, a liberdade teve um preço alto, um custo social elevado, pois os recém libertos não tinham estrutura, foram jogados numa realidade dura, sem emprego ou moradia, sem direitos assegurados, dentro de uma sociedade preconceituosa.
120 anos se passaram. Zumbi, hoje, é símbolo, comemorado, tendo até um feriado, atos de valorização, enaltecedores da consciência negra e leis são promulgadas para reparar tantos anos perdidos na escuridão vil da escravidão. Mas, será que muita coisa mudou?
Se analisarmos, o preconceito continua ativo e vivo na sociedade, quando nos confrontamos com condições que desprivilegiam o ser humano, não só quanto a sua cor, mas quanto a sua condição social ou até mesmo física. Desigualdades são vistas todos os dias, injustiças praticadas a todo o momento, é o racismo velado, a escravidão imposta pela sociedade que marginaliza o indivíduo quando lhe nega os direitos à educação, a dignidade e ao respeito.
A abolição foi assinada no Brasil há 120 anos, mas falta ser assinada, definitivamente, a abolição das injustiças contra todas as formas de racismo e preconceitos, contra todos os “ismos”. Precisamos nos sentir verdadeiramente irmãos, irmãos que formam uma única família sob a face da Terra, sem distinção de cor, credo ou língua. Onde fronteiras não existam, porque a terra deve ser de todos e as oportunidades à vida, como o direito a educação, a um salário justo, a uma moradia descente, a mesa farta com alimentos de qualidade, a segurança, o direito de ir e vir e a paz não constem só em atos firmados numa folha de papel, assim como foi a liberdade assinada a 120 anos atrás.
São cruéis os dias de hoje, mas não devemos esquecer que para existir liberdade é preciso que vozes, idéias, ideais e, principalmente, atitudes concretas sejam postos em prática. O passado existe para aprendermos a mudar o futuro, para consertarmos os erros no momento presente em que vivemos.
A liberdade não deve ser uma palavra, deve ser realidade em nossas vidas. Uma realidade feita de escolhas e responsabilidades, respeitada em todo o seu sentido pleno para a vida poder existir.
Viva a Abolição, de tudo que seja contra a vida! Viva a LIBERDADE!
Texto de Regina Sant’Anna
08/07/2008
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