1. Editor do Jornal de Literatura Contemporânea O Casulo.
2. Assistente de Coordenação Cultural na Casa das Rosas - Espaço
Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.
3. Editor da Revista Literária Metamorfose.
4. Teve grande participação na fundação do Projeto
Identidade.
5. Um dos fundadores da FLAP!.
6. Produtor de eventos culturais, como saraus, recitais e lançamentos.
7. Autor de "Outro dia de Folia" - sem previsão de lançamento.
"Eduardo Lacerda nasceu em Porto Alegre, em 1982. Conheci-o quando O Casulo estava começando a passar da idéia à realização. A literatura contemporânea tem sido constantemente tatuada com seu nome.
Exigente, seguro, crítico, motivador, tranquilo, inquieto, rebelde, intenso, reservado... Não faz diferença como você o vê, menos ainda se ama ou odeia. As descrições podem até ser contraditórias - dependendo de que lado você esteja. A verdade é que, cada ação que leva o nome de Eduardo é uma vitória a todos nós.
Este é Eduardo Lacerda sem cortes, sem doses homeopáticas: um apaixonado pela literatura, um exemplo, um ídolo - meu e de muitos."

Por que eterno graduando em Letras?
Estou há 7 anos no curso de Letras da Universidade de São Paulo. Não o suporto mais. Acho que a faculdade me ensinou menos do que pude aprender sozinho. Não estou falando do ensino formal, esse só se encontra no contato com os livros, aulas e professores.
Sinto uma grande frustração com o curso de Letras pelo convívio e relação que quase todos têm com o conhecimento. Os alunos, muitos, por estarem em uma faculdade pública, se julgam seres superiores, embora esteja vendo, cada vez mais, alunos de faculdades menos conceituadas elaborando melhores estudos sobre literatura e poesia. O curso de Letras da USP, como é, está em decadência, é o que acredito. Muitas greves, muita insatisfação, muita bobagem e pouca relação com o que importa, a literatura. Não apenas a literatura canonizada, mas a literatura que está pulsando no país e esperando uma recepção também da academia.
O Herberto Helder, se não me engano, também abandonou o curso de Letras em Portugal. Espero que possa percorrer um caminho na literatura tão rico, embora diferente, como o do Herberto.
Porque é difícil fazer as pessoas lerem?
A média de leitura do brasileiro é de 1.8 livros por ano. Como brincou um amigo, o brasileiro lê um Paulo Coelho e pára na metade de um Harry Potter.
Sério e triste é que, na verdade, as pessoas não gostam de ler. Mas explico essa generalização reducionista: Até hoje usam como desculpa para a falta de leitura o preço dos livros. Dizem que livros são caros, que são de difícil acesso, que o Brasil é um país pobre e que literatura não é a nossa prioridade.
É claro que nós somos um país pobre, onde milhões de pessoas passam fome, frio e necessidades. Isso, todos nós, sabemos.
Mas o problema do livro não está na classe mais pobre.
Ao começar a responder essa entrevista li em um jornal que, só neste natal, serão vendidos 6 milhões de novos celulares.
Entendo que em um país onde milhões de pessoas, incluindo os jovens, têm dinheiro para consumir celulares, recargas mensais para os mesmos, bebidas, cigarros, revistas pornográficas, roupas de “marca” e uma infinidade de outros produtos mais ou menos supérfluos, logo não é a falta de dinheiro o que impede a leitura de nossa população. É a falta de vontade. As pessoas não gostam de ler.
A segunda desculpa para a falta de leitura do brasileiro é a nossa péssima educação. E como venho argumentando desde a última edição da FLAP!, acredito que literatura não é educação, mas cultura.
A educação formal claro que pode e deve melhorar nossos índices de leitura e de fruição da literatura, mas países com excelente educação têm, muitas vezes, menos leitores do que países com uma educação ainda precária.
Quando digo que as pessoas não gostam de ler, quero dizer que a leitura não faz parte de nossos hábitos culturais.
Há diversas explicações para isso. Penso muito nas palavras do Professor Antonio Candido:
“Formaram-se então (a partir de 30) novos laços entre escritor e público, com uma tendência crescente para a redução dos laços que antes o prendiam aos grupos restritos de diletantes e “conhecedores”. Mas esse novo público, à medida que crescia, ia sendo rapidamente conquistado pelo grande desenvolvimento dos novos meios de comunicação. Viu-se então que no momento em que a literatura brasileira conseguia forjar uma certa tradição literária, criar um certo sistema expressivo que a ligava ao passado e abria caminhos para o futuro – nesse momento as tradições literárias começaram a não mais funcionar como estimulante. As formas escritas de expressão entravam em relativa crise, ante a concorrência dos meios expressivos novos, ou novamente reequipados, para nós – como o rádio, o cinema, o teatro atual, as histórias em quadrinhos. Antes que a consolidação da instrução permitisse consolidar a difusão da literatura literária (por assim dizer), estes veículos possibilitaram, graças à palavra oral, à imagem, ao som (que superam aquilo que no texto escrito são limitações para quem não se enquadrou numa certa tradição), que um número sempre maior de pessoas participassem de maneira mais fácil dessa quota de sonho e de emoção que garantia o prestígio tradicional do livro”

Você realiza projetos que buscam levar as pessoas a lerem mais. Quais?
Realizo, em conjunto com o Coletivo VACAMARELA, diversos projetos de difusão da literatura, posso destacar O Casulo – Jornal de Literatura Contemporânea, editado por mim e pela poeta Andréa Catrópa e a FLAP! – Festa Literária, organizada pela poeta Ana Rüsche.
O Casulo é um periódico literário de distribuição gratuita e que só publica autores contemporâneos. Já editamos 7 números nesses dois anos de atividades e publicamos mais de 150 escritores de todo o país.
Em 2007 contamos com o apoio do VAI – Valorização de Iniciativas Culturais – da Prefeitura de São Paulo. O apoio, no valor de apenas R$ 15.000 permitiu realizarmos dois números do jornal, com tiragem de 30.000 exemplares cada, acredito que a maior tiragem de um jornal literário do país. Além desse acréscimo na tiragem, pudemos, graças à impressão nas oficinas da OESP, aumentar a qualidade, incluindo páginas em cores.
A distribuição desses 60.000 exemplares ocorreu gratuitamente em 150 escolas e ensino médio, 23 CEU (Centro Educacional Unificado), 88 Bibliotecas e Casas de Cultura, Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, Teatros, SESC, Itaú Cultural, Saraus pela Cidade, Museu da Língua Portuguesa somando quase 300 espaços de distribuição.
Também organizamos o 1º Concurso Literário “Saia do Casulo” o qual premiou 20 alunos do ensino médio com um kit de livros doados por diversas editoras. Destes 20, 8 tiveram seus textos publicados no 7º número e os demais foram publicados em nosso blog.
Além desses dois principais projetos, O Casulo e FLAP!, a VACAMARELA realiza dezenas de eventos como saraus, recitais, lançamentos etc. E está se constituindo em uma Associação de Escritores, pretendendo profissionalizar a divulgação dos escritores.
A FLAP! surgiu como uma resposta à FLIP. Você se considera revolucionário? A FLAP! chegou aonde você esperava?
A FLAP! foi criada em 2005 pela poeta Ana Rüsche, uma das escritoras mais importantes em atividade no país. Importância literária, obviamente, e ainda mais importância na realização de eventos e projetos que divulguem realmente a literatura.
Eu a ajudei, assim como quase todos que estão na VACAMARELA (alguns só chegarem depois) na realização da 1º FLAP! e acho que nesse evento eu sou um coadjuvante, não um revolucionário.
Sobre o evento posso dizer que foi criado para, inicialmente, ser um contraponto à FLIP! – Festa Literária Internacional de Parati, um evento elitizado e muito distante dos anseios e preocupações de quase todos os novos escritores que conhecíamos.
Reunimos, em menos de um mês de organização, dezenas de poetas, quase todos jovens, pequenos editores, produtores culturais, estudantes, jornalistas e interessados em literatura. Quase 400 pessoas compareceram ao evento e a troca de experiências via Internet foi muito produtiva.
Posso dizer que a FLAP! não pretende chegar a algum lugar. Todas as nossas respostas estão nas nossas dúvidas e quanto mais nos questionarmos, melhor.
Para 2008, na 4º edição, pretendemos realizar um Encontro dos Encontros, reunindo poetas de toda a América latina envolvidos com a organização de projetos semelhantes, há países com dois ou três encontros de jovens poetas / escritores e pretendemos que o Brasil e a FLAP! sejam um ponto de encontro de tudo isso que está acontecendo.
Internet ajuda novos escritores ou banaliza a literatura? A rede realmente é um meio?
Acho que a Internet banaliza a literatura na sua produção, mas ajuda na divulgação e recepção por parte do público.
Poetas medíocres ou de ocasião sempre existiram. Leio muitos livros em sebos, muitas antologias, e as ingenuidades que leio nos livros de 30, 40, 50 anos atrás são as mesmas que leio em comunidades no orkut.
Eu arrumo muitas inimizades pela Internet ou pessoalmente por acreditar que o trabalho com a literatura é sério. Quero dizer, muitos escritores se levam muito a sério, mas não a sua literatura. Eu não me levo a sério, muito menos os outros escritores. Eu levo a sério a sua literatura.
Acredito que todas as pessoas têm o direito de se expressar através da poesia, assim como acredito que todas as pessoas podem jogar futebol aos finais de semana para se sentirem bem, saudáveis e integradas pelo esporte. Mas estar na seleção, jogar em um grande time é uma outra história: é necessário treino, preparo, dedicação, estudo etc. Assim eu acredito que deve ser com a poesia. Quem quer escrever por escrever, que escreva e seja feliz. Mas quem pretende realizar um trabalho sério com a literatura e, de alguma forma, contribuir com a mesma, deve estudar, ler, procurar aprender etc.
Muitos leitores reclamam que só encontram livros de poesias de Cecilia Meireles, Drummond, Pessoa e Florbela nas prateleiras das livrarias. Sabemos que são muitos os poetas de qualidade que ainda estão no anonimato. Como mudar esse panorama? (incentivo do governo, interesse das editoras, barateamento dos custos do livro...)
Um dia Fernando Sabino escreveu ao Mário de Andrade perguntando o que deveria fazer para se tornar um bom escritor. Mário, um nosso gênio, recomendou que ele lesse de tudo, principalmente os seus contemporâneos.
Quem faz um escritor não é só o público. Um escritor é também fruto da sua relevância entre outros escritores. Ler e ser lido por nossos pares é fundamental.
Eu tenho batido muito nessa tecla de que precisamos, antes de tudo, ler quem está ao nosso lado. Claro que como disse na resposta acima, há milhares de ingenuidades e bobagens, muitos poemas ruins mesmo. Mas não podemos ignorar nem mesmo estes escritores.
Há comunidades no orkut como a “Poemas e Poesias” com mais de 56 mil membros. Quase todos escrevem. Se só estes poetas ou pseudo-poetas se lessem realmente, comprassem livros dos colegas, participassem dos eventos realizados em cada cidade, enfim, nossa situação seria outra.
Anteriormente eu disse que o problema do livro não é o preço, e reafirmo. O preço de produção de um livro é muito barato, e o preço cai conforme aumentarmos a tiragem. Atualmente um livro de 120 páginas em papel reciclado 90 gramas, capa em papel cartão supremo ou em Kraft 250 gramas, acabamento com cola e costura, ou seja, um livro de luxo, sai, para mil exemplares, entre R$ 2.80 e R$ 4.00 e pode diminuir sempre que a tiragem subir.
O incentivo do governo é importante, mas não podemos eternamente esperar por bolsas-esmola. Nossa economia e cultura precisam, mais cedo ou mais tarde, aprender a se sustentar sozinhas.
O Coletivo VACAMARELA tem atuado realizando eventos que divulgam a nova poesia brasileira. E o caminho, para todos nós, é a profissionalização.

Há uma discussão sobre e-books. Qual sua posição sobre o assunto?
Acho o e-book uma alternativa, mas sempre que há uma alternativa ela é em relação a algo. Nesse caso acho que muitos consideram o e-book como uma alternativa ao livro impresso. Mas se é para vender o e-book a um preço semelhante ao do livro, como fazem, acho que ele não é alternativa a nada e prefiro comprar o impresso mesmo. Só é alternativo se distribuído quase que gratuitamente.
Há também uma discussão se o livro virtual substituirá o livro tradicional, impresso. Não, nunca o livro será substituído e essa é uma resposta que não necessita de argumentos. Todos que amam os livros sabem que eles são insubstituíveis.
Fale sobre seu livro “Outro dia de Folia”
É um livro que talvez nunca saia. Eu venho, há alguns anos, publicando poemas em revistas e jornais como a Entrelivros, Mirante, FNX, Não Funciona, A Cigarra, VAIA etc e em sites como Germina Literatura e Cronópios, ganhei alguns concursos como da UNESP de Assis e o Ladjane Bandeira, da Biblioteca de Afogados da Cidade de Recife, mas ao mesmo tempo eu venho descartando estes poemas... Acho que o livro é uma coisa muito séria, Drummond só publicou aos 28 anos e eu não sou Drummond.
Cite alguns autores que vale a pena conhecer.
São muitos os autores que vale a pena conhecer. Entre os clássicos acho que é fundamental ler Drummond, João Cabral, Campos (Augusto e Haroldo), Leminski, Hilda Hilst, Clarice, Garcia Márquez, Sthendal, essa patota toda que conhecemos e mais algumas dezenas.
Quem me atrai mesmo são os novos, os vivos: Marcelino Freire, na prosa e Frederico Barbosa, Carlito Azevedo, Fábio Weintraub, Paulo Ferraz, Ruy Proença entre outros, na poesia.
Me atraem ainda mais os novíssimos, Ana Rüsche, Billy Celestino, Lílian Aquino, Andréa Catrópa, Donny Correia, Gustavo Assano, Renan Nuernberger, Diego Castilhos, Beatriz Bajo etc.
E os novos novíssimos, dois garotos ganhadores do concurso realizado pelo Casulo: Bruno Molinero e Ricardo Miyada; Nícolas Ranieri, um gênio de apenas 16 anos e acredito muito, sem nepotismo, na poesia de Aline Rocha, minha namorada.
Quando não está em alguma atividade envolvendo a cultura, o que costuma fazer?
Parodiando a famosa letra: eu faço samba, amor, poesia e macumba até mais tarde. Me interesso por artes: teatro, cinema, música, literatura. Adoro jogos, carteados, fliperamas. É impossível, minha opinião, poesia fora da diversão. O poeta não deve se levar a sério, mas levar a sério a sua poesia. Também sou tarólogo e umbandista e isso consome muito tempo de dedicação.
Tenho paixão pelos ciganos, quero aprender Tango, forró eu já aprendi. E amo pescar.
Estou vivendo um grande amor, tenho um lindo cachorro e sonho com uma casa com varanda e redes. Muitos filhos.
Sonhos burgueses e bucólicos.
“feito uma aguardente que não sacia
que é feito estar doente de uma folia” (Chico Buarque)
Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.
/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda
dos pais.
Restos do pequeno
que sentavam ao meio
da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /
Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.
Tenho andado errado:
o passo largo,
à frente do tronco (do
resto inteiro, do corpo,
este cimento.)
somente em sonho,
neste ligeiro
plano de
vôo,
me alcanço.
Somente em trânsito
esbarro no que
reconheço,
no que sinto,
e estranho.
“Se devíamos chorar quando os palhaços começam
a folia,
Se devíamos pinotear quando os músicos se põem a tocar,
O tempo nada dirá mas eu o preveni.” (W.H Auden)
Na festa
Esgares de assopros
incineram
os fogos.
Apagado
sorrio,
de lado.
Fria a vela
o desejo retorna ao estado
de espera.
E eu espero.
E eu estou de parabéns.
Aquele homem batera
todo dia à minha casa
sem nunca encontrar:
nada
/ da janela
do sobrado
meus olhos
de soslaio
poderiam ir ao fundo
da própria ameaça,
salvá-los.
(meus brinquedos não
eram tão velhos para
seguir em sua viagem
sozinho)
Mas não iam ao fundo
paravam à margem
chapinhavam o medo
que nadará o homem
que nada a criança.
(Tornando-se homem
planeja a vingança
um ataque à ameaça) /
Aquele velho baterá
todo dia à minha casa,
e só encontrará nada.
E dizem que
não vejo que o velho
passa fome:
O homem do saco
leva hoje
desaforo para casa.
Jogou copos contra
Paredes.
Mudou de letra com
caligrafia e sessões
terapêuticas, dando-
se firmeza às mãos
rabiscou espelhos
de batom (não
sendo ele a própria
letra.)
Lençóis amassados e
marcas de unhas
nas costas.
Cheiro de cigarros,
embebido suor
e incenso.
– os poucos amigos,
dispersos,
juravam que vivia
em festa. –
Onde encontrar Eduardo Lacerda: Blog
Desaforum e Casa
das Rosas.
Obs.: No decorrer da entrevista, os sites citados estão com seus respectivos
links, bastando um clique seu para visitá-los.
Recadinho do Eduardo para dia 23/12, cheio de humor: "Aproveito para convidar os que se interessam a comprar o jornal "Diário de São Paulo" no domingo, lá deve sair, segundo promessas da jornalista (estes seres estranhos que eu adoro), uma pequena matéria sobre carreira onde sou citado como alguém que saiu do curso de letras e vive de literatura com produção cultural e edição.
Claro, não acreditem.
E tem fotos também, dizem... quando as tirei, na Casa das Rosas,
me
senti modelo da playboy com o fotógrafo dizendo : "lindo" / "bonito"
/
olha de perfil / isso / assim / agora deita no chão / olha pro jornal
/ gato entre outras coisas.
Até o convidei para um café... mas não rolou."
Entrevista concedida à Elida Kronig
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