Assisto na TV, de vez em quando, a trechos de recital com orquestra sinfônica do Brasil ou do estrangeiro. Enquanto ouço as melodias, quase sempre gravadas e não ao vivo, vejo a elegância dos músicos. Na maioria, usam indumentária especial de cor negra ou azul-marinho.
Os homens aparecem de terno, gravata-borboleta, camisa branca de punho bordado, e as mulheres de vestido longo.
O maestro, que rege a orquestra, tem jeito de ator teatral, empunha as mãos do músico, ora no braço de um violino, ora deslizando o arco sobre as cordas, penso na semelhança entre dedos humanos e patas de insetos gigantes, com malabarismo contido.
Vários trombones encarreirados mexem com minha sensibilidade, em acordes especiais. Trompetes, clarinetas, fagotes, tambores, tudo me convida para imaginar realidades poéticas.
Música e poesia enfeitam a vida, por isso a palavra vate, que significa bardo, menestrel, poeta, era o vidente, profeta e vaticinador dos fatos, de acordo com a etimologia do vocábulo. Essas adivinhações eram feitas em versos, daí o termo passou a designar o fazedor de poemas.
Vaticinar é prognosticar o porvir. Literatura serve também para amenizar as agruras naturais da existência, no jogo musical em lidar com palavras, em seu ritmo, graças às sílabas tônicas.
Há pessoas que nem ligam pra textos bem bolados. Deve haver alguém que não goste de música. Há pessoas que não gostam de poesia. Pela primeira vez, vi por acaso na TV uma orquestra de lavradores, pessoas humildes, de roupa simples, com sandálias de borracha ou alpercatas de couro cru.
Ouvi arranjos comoventes de peças famosas no mundo, como valsas vienenses. Ouvi também melodias populares, folclóricas, como Mulher Rendeira, Asa Branca, Bumba-meuboi, Folias-de-reis, modinhas antigas.
Pelo que recordo, trata-se de um lugarejo chamado Belmonte, no Nordeste, a sede dessa orquestra de operários e lavradores, pessoas do campo. Há 35 anos aparece por lá o padre Ágio, italiano, que ? vendo a pobreza e a bondade dos habitantes ? funda uma escola de música.
Ouvi o depoimento do atual maestro, sem paletó e sem gravata, de roupa simples, calçado modesto. Ele fez curso de regência. Aos 14 anos, sai da lavoura. Hoje tem um filho que é músico da orquestra sinfônica do Estado de São Paulo.
Ele disse: ?Eu poderia ser lavrador e feliz, até hoje, como é meu pai. A música, no entanto, me dá outro tipo de felicidade?. Quando vejo a inteligência de miseráveis, lembro-me do Vale de Jequitinhonha, com sua indigência, esbanjando dons artísticos de seus habitantes.
Em contraste, noto a corrupção de alguns homens públicos, magistrados, políticos e policiais. A iniqüidade ressalta o paradoxo do povo brasileiro, com pequena porcentagem de poderosos e com o resto na mediocridade, quase penúria. Há uma faixa abaixo da pobreza.
O atual presidente da República, o populista Lula, se vale de seu carisma e continua engambelando os seus seguidores, como se fossem fanáticos religiosos.
Ele, como um deus, permite o mal, mas não faria maldade. Assim é a crença. Não quero fazer queixas. Restam- me no mundo a música, a poesia, a arte e a literatura. Ainda estou ouvindo os acordes da orquestra de Belmonte.
Fonte: O Tempo.
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