O
Sr. Ernesto Santos Mello casou-se com D. Eurides Gusmão Figueira Mello,
de ascendência hebraica. Por dificuldades econômicas ou mesmo por
costume da época, habitaram nos primeiros tempos a velha casa da Fazenda
Boa Vista, propriedade de Virgílio Figueira e D. Maricota Gusmão
Figueira, pais do Sr Ernesto. Ali, naquela velha casa, em 21 de dezembro de 1937,
nasceu o cantador, violeiro e trovador Elomar Figueira Mello.
Aos três anos de idade, em face da fragilidade da saúde do menino, seus pais saem da fazenda e passam a morar na cidade de Vitória da Conquista.
Na cidade de São Joaquim, berço da 2" infância, cursou parte do primário escolar, completando o ginasial no ano de 1953.
No ano seguinte, a contragosto seu, vai cursar o científico no Palácio do Conde dos Arcos em Salvador. Em 1956, interrompe o curso e volta à terra natal para servir ao exército, passando a morar com sua avó paterna. A partir dos dezoito anos, a casa de "mãe Neném", sua avó, será sua morada toda vez que voltar de férias da capital, embora visite constantemente sua avó Maricota na cidade e seus pais em São Joaquim. Esta preferência de habitação deve-se ao fato de mãe Neném, sendo católica apostólica, ter sido mais tolerante com o tipo de vida do moço poeta, de perfil boêmio. Em 1957, novamente em Salvador, conclui o científico. Em 1958, perde o vestibular de geologia, face o já grande enredamento com a música nos meios intelectuais dali. Em 1959, faz o vestibular para arquitetura.Formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, no final da década de 60. Teve uma passagem rápida também pela Escola de Música dessa Universidade.
A música e a poesia essencial, com a força de seus encantamentos, despertaram o compositor numa idade muito tenra, e o poeta, um pouco mais tarde. Aos sete anos, no São Joaquim, ouviu os primeiros acordes de viola, violão e sanfona e as primeiras estrofes das tiranas dos côcos e parcelas de Zé Krau, Zé Guelê e Zé Serradô. A partir daí começam as primeiras fugidas de casa, pelas bocas-de-noite, não só para ouvir como também, por excelência, para aprender os primeiros tons no braço do violão, que será seu instrumento definitivo.
Aos 17 anos, começam as composições literárias e musicais numa seqüência interminável, mas sem ainda ter uma linha definida. Destas Calendas são: Calundu e Kacorê, Prelúdio nº Sexto, Samba do Jurema, Mulher Imaginária, Canção da Catingueira e abertura de O Retirante. Em 1959-1960, começam a lhe chegar idéias de trabalhos maiores em envergadura e vai compondo aleatoriamente o ciclo das canções. Contudo, sempre preso à mesma temática, as vicissitudes do homem, seus sofrimentos, suas alegrias na terrível travessia que é a sua vida e, sobretudo, seu relacionamento com o Criador. Isto, é claro, a partir do seu elemento circunstancial, o Sertão, sua pátria. Verdadeiramente, onde vive.
Em
1966 casa-se com Adalmária de Carvalho Mello, doutora em Direito e filha
da capital, contudo de origem "sertaneza", da qual nascem Rosa Duprado,
João Ernerto e João Omar. João Omar, Maestro e Compositor,
acompanha o pai desde os nove anos de idade.
Em 1969, sela o caderno da sua primeira ópera, o "Auto do Catingueira", mais tarde, parcialmente partiturada, face o caráter popular da obra.
Só no final dos anos 70 e início dos 80 inicia a carreira de peregrino menestrel, de viola na mão, errante, de palco em palco pelos teatros do país, conquistando uma pequena platéia composta de poetas, músicos, compositores e de intelectuais de linhagem pura, sem modernosas e, por fim, de simples pessoas do povo, atraídas mais pela linguagem dialetal, a temática sertânica e as melodias fora de moda e (segundo Dr. Raimundo Cunha) indançáveis. A partir daí, não para mais.
"A mim me parece um disparate que exista mar em seu nome, porque um nada tem a ver com o outro, No dia em que "o sertão virar mar", como na cantiga, minha impressão é que Elomar vai juntar seus bodes, de que tem uma grande criação em sua fazenda "Duas Passagens", entre as serras da Sussuarana e da Prata, em plena caatinga baiana, e os irá tangendo até encontrar novas terras áridas, onde sobrevivam apenas os bichos e as plantas que, como ele, não precisam de umidade para viver; e ali fincar novos marcos e ficar em paz entre suas amigas as cascavéis e as tarântulas, compondo ao violão suas lindas baladas e mirando sua plantação particular de estrelas que, no ar enxuto e rigoroso, vão se desdobrando à medida que o olhar se acomoda ao céu, até penetrar novas fazendas celestes além, sempre além, no infinito latifúndio.
Pois assim é Elomar Figueira de Melo: um príncipe da caatinga, que o mantém desidratado como um couro bem curtido, em seus 34 anos de vida e muitos séculos de cultura musical, nisso que suas composições são uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos reis-cavalheiros e menestréis errantes e que culminou na época de Elizabeth, da Inglaterra; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão, no fim extremo dos quais reponta de repente um cego cantador com os olhos comidos de glaucoma e guiado por um menino - anjo a cantar façanhas de antigos cangaceiros ou "causos" escabrosos de paixões espúrias sob o sol assassino do agreste."

Atualmente, aos 70 anos, Figueira Mello já um pouco mais adiantado na estrada, continua compondo intensamente, varando os dias e as noites sem descanso. No seu labutar, confessa que tem de escrever sem perda de tempo, pois que a obra é imensa e o tempo já declina pela tarde. Já deixou a Casa dos Carneiros, na Gameleira, onde demorou por um bom tempo de sua vida e donde saiu o grosso do ciclo das canções.
Falando do "Cenas Brasileiras", Elomar assim define sua música: "Minha música não tem cores sociais, tem cores sociológicas. Minha música fala do homem como um ser, como uma criatura de Deus. E ela não tem nada a ver com o homem como uma deformação, uma construção política. É uma criatura de Deus, que veio à Terra e está aqui travando a luta da vida, mas sempre com a esperança de vencer."
Sobre o homem em sua obra, diz: "Digamos que o catingueiro seria o elemento sertânico na minha música que entra como tinta, cores numa tela. A tela é o topo da obra. Digamos que o sertanejo fosse o vermelho, a cor forte, o sol, sangue da terra, o tauar da terra do sertão, mas muitas cores outras entram nesse quadro, nessa tela, nessa obra minha. O urbano também está em curso, os urbanóides, o homem planetário. O da catinga, o do sul, o homem que está lá na Sibéria, o esquimó, o patagão, o pigmeu lá da África Central, tudo é uma coisa só, é um só homem. Porque uma coisa a gente aprende: quando você canta a sua aldeia, o seu pátio, você está está fazendo um canto universal. Eu cá entendo que toda a vez que eu canto o meu sítio, estou cantando o sítio de outro porque, na realidade, o homem é um só. As vicissitudes humanas são as mesmas. O que muda no homem é uma questão só de clima, que está em volta, mas o homem é um só. Foi Homo sapiens, Homo Faber é um tipo só. O que muda são os costumes, o complexo cultural de cada povo."
Fontes: Site Oficial de Elomar, Site do Elomar na UFBA, MPB Net
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