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Tia Ciata. Uma mulher de força

Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata ou Aciata, nasceu em 1854 em Salvador. Filha de Oxum, no Candomblé, foi iniciada nos preceitos do santo Casa de Bambochê, na nação Ketu. Sua história está intimamente ligada à história do Rio de Janeiro onde, a partir de 1850, nas imediações do Morro da Conceição, Pedra do Sal, Praça Mauá, Praça XV, Cidade Nova, Saúde e zona portuária foi crescendo a população de negros e mestiços oriundos de várias partes do Brasil, principalmente da Bahia, bem como de ex-soldados da Guerra de Canudos. Estes últimos viriam a formar uma comunidade que eles próprios denominaram de “Favela” – termo que posteriormente viria a ser usado como sinônimo de construções irregulares para as classes menos favorecidas. Um desses principais líderes desse tipo de comunidade pobre foi o músico e dançarino Hilário Jovino Ferreira (1855/1983), responsável pela fundação de vários blocos de afoxés e ranchos carnavalescos. Muitas baianas descendentes de escravos alojaram-se nesses bairros, sendo conhecidas como as Tias Baianas.

No final do século XIX foram apelidadas de Tias do Samba, responsável pela sedimentação da cultura negra, principalmente com relação ao candomblé e o samba amaxixado da época. O samba recebeu essa denominação pela influência que recebeu do maxixe, cujos compositores que mais se destacaram foram Sinhô, Caninha, José Francisco de Freitas, Eduardo Souto e Donga.

Voltando à Tia Ciata...Aos 22 anos e com uma filha, mudou-se para o Rio de janeiro indo morar na rua da Alfândega, mais tarde na Cidade Nova quando formou nova família e continuou com seus preceitos religiosos na casa de João Alabá, tornando-se Mãe Pequena. Tia Ciata casou-se com o médico negro João Batista da Silva que chegou a ser oficial do gabinete do Chefe de Polícia, no tempo em que Wenceslau Brás foi presidente da República.

Ainda jovem, conquistou prestígio na comunidade. Muito respeitada por seus conhecimentos de religião não deixava de comemorar, em sua casa, as festas dos Orixás quando, depois da cerimônia, armavam um pagode que chegava a durar três dias.
Como cantar, tocar ou dançar samba em lugares públicos era proibido, os sambistas recorriam às casas religiosas para se divertir, confiando na ignorância da polícia, incapaz de distinguir sambas de músicas religiosas. Certa vez, João da Baiana contou que era comum a chegada inesperada da polícia a essas casas, sempre com o mesmo pretexto: “Recebemos denúncia que nesta macumba se canta samba”. Na época, o preconceito contra as músicas de origem negra pode ter como exemplo a violenta reação ao fato de um violonista ter tocado, em 1914, o Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga, numa festa realizada no palácio presidencial, escandalizando Marechal Hermes. Os estudantes promoveram passeatas contra o governo e, em discurso no Senado, Rui Barbosa afirmou que o Corta Jaca era uma dança selvagem, “irmã do batuque do cateretê do samba”. A casa de Tia Ciata era local de residência. Por isso mesmo, ela foi uma das responsáveis pela sedimentação do samba carioca.

Segundo a lenda, o samba pra alcançar sucesso tinha que passar por sua casa e ser aprovado nas rodas de samba que ela dava. Várias composições foram criadas e cantadas em improvisos nesses eventos, como o samba “ Pelo Telefone” que viria a ganhar assinatura de Donga e Mauro de Almeida. A partir desta composição, o samba passou a ser reconhecido pelas gravadoras como um gênero musical.

Boa doceira, Tia Ciata punha barraca de comidas na festa da penha e, em volta dela se formavam rodas de samba com a participação de Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô e Pixinguinha, alguns deles ainda desconhecidos como artistas. Sua casa tornou-se a capital da Pequena África no Rio de Janeiro, um dos portos obrigatórios dos cortejos de Carnaval, onde os ranchos passavam para reverenciar a velha baiana. Tia Ciata morreu em 1924.

Fonte: Revista Fala Criança
INSTITUTO PRIMEIROS TRAÇOS DE ARTE, EDUCAÇÃO E CULTURA – ANO 4 - Nº24 – MAIO DE 2007

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