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Liter & Art Brasil

movimento cultural de literatura e arte do brasil

Marcelino Rodriguez
"A leitura é vital para o indivíduo e para os povos. Um povo sem leitura é um povo subjugado." - Marcelino Rodriguez
Quem é...

Sou Marcelino Rodriguez no Brasil, ou Marcelino Cea de Sena na Espanha. Tenho dupla cidadania E todos que temos essa condição acho que as vezes nos sentimos perdidos em parte na identidade, com uma sensibilidade grande a nuances de humor e de cultura. Deve ser os genes. Quando vivi na Argentina , por exemplo, descobri que as palavras , por exemplo, Chica e Menina são a mesma coisa e não são a mesma coisa, pois os povos tem intensidade diferente.

Sou um cidadão perplexo com todas as coisas. Comecei a carreira como poeta, mas como sou um homem pragmático, decidi tornar-me autor de outros generos. Poesia hoje pra mim é algo muito distante. A vida anda muito feroz. Mas sou um escritor, com todo comprometimento que essa condição traz, além de ser torcedor do América, minha paixão mais pura.

Livros Publicados?

Tenho 8 livros editados. "O Observador de Pardais", 1996. "O Espião de Jesus Cristo, 1999. "Juvenília", 2000, poesias. Desse ano em diante todos foram editados pela minha editora, Luz do Milenio. "A Ilha" e Café Brasil" 2001. "Mar Romantico Mar e Boneco de Deus", 2002. Bom dia , Espanha! 2005. Fora mais algumas participações em antologias diversas.

Posso dizer que já tenho uma base de obra. Trabalho bastante, graças a Deus. Gosto de produzir.

Bom dia, Espanha! O Espião de Jesus Cristo

Próximo Livro?

Olha, tenho vários projetos, inclusive um livro espiritual, mas não sei se vou eu mesmo editá-lo ou se vou passar pra outra editora. Tou repensando meu trabalho. Sou escritor por vocação e editor por necessidade. Tou escrevendo uns 3 livros diferentes, mas ainda não decidi nada.

Prêmios Recebidos?

Recebi os 10 melhores da Taba que foi minha primeira editora, um premio do Jornal Ação Cultural e o mais importante, o premio Pérgula Literária por ter ficado entre os 5 primeiros num concurso internacional.

Cite alguns momentos que foram marcantes, significativos e/ou emocionantes na sua vida pública:

Bem, como sou um autor que ainda esta entrando na grande mídia, creio que meu momento mais emocionante foi os emails que recebi de boa parte do mundo pela cronica Bom Dia, Espanha! escrita no dia dos atentados em Madri. Eu estava vivendo na Argentina, numa solidão difícil de conceber.

Um momento de tensão?

A Falencia da minha editora em 2003 e a impossibilidade de ficar no Brasil pela total falta de apoio.

O que faz que as pessoas do meio poético desconhecem?

Digamos que eu procure me desensensibilizar um tanto, para bem do meu bem estar psiquico.

Tem algum hobby? Qual?

DVDS e folhar livros tomando um expresso, além de ver jogos do América, claro.

O que mudaria no mundo, se pudesse?

Mudaria o coração das pessoas.

O que mudaria em você?

a Hipersensibilidade.

O que não mudaria?

Meu Caráter.

As coisas que não gosta, não faz de jeito nenhum?

Qualquer tipo de corrupção me enoja.

Algo que não gosta, faz por obrigação?

Procuro gostar do que tenho que fazer por obrigação. Mas passar roupa é meio chatinho.

Estamos sempre aprendendo, qual foi seu último grande aprendizado?

Uma grande decepção afetiva me ensinou a ficar mais esperto e mais cético.

O papel das artes no contexto social?

Atualmente anda havendo uma defasagem nas "artes"; se produz em massa
muita porcaria e se vende como arte.

Trabalhos que você admira (escritores, artistas, músicos...)?

Gosto do Trabalho do Nilton Bonder e do Paulo Coelho.

A arte deve ser politizada?

Sim, em grande parte a arte deve ser conscientizadora.

Pelo lado das Artes, o que realizaria no Brasil - o que está faltando, o que precisa ser feito?

Ensinar o brasileiro a ler, inclusive com metas de livros per capita.

A sua arte?

Sobreviver.

Amigo é...

Alguém que não muda de caráter e nem nos abandona na adversidade.

Qual a frase que resumiria a sua vida?

"Eu sou minha tenacidade".

Quer dar algum recado para os mais jovens e/ou iniciantes?

Eu diria que se for inevitável escrever, que escreva, mas arrume meios práticos de ganhar a vida.

Marcelino, o escritor

Tango para Hermanita Laura

(À Laura Venslavicius )

Enquanto com a ternura ferida,
Meus pensamentos solitários, sangüíneos
Iam da Galicia a Havana,
Passando pela Argentina
Nas noites frias dos computadores,
Exilado das mãos humana nos cyber-cafes,
Recebendo dos jornais as mais sombrias noticias
Da terra – tua asa portenha me encontrava
Por esses dias que fugiam
Um após outro, como pássaros emigrantes.
Fizeste comigo a alada crônica da amizade,
Esse poema de força infinita.
Com teus passos, desde então vens
Andando comigo, enquanto minha viagem prossegue
Nos gelos silenciosos das rodoviárias,
Nas minhas buscas de acertar o alvo
A cada dia errante peregrino
Persisto, deixando nos sonhos noturnos
O único descanso , no coração a esperança
Que um dia minhas palavras encontrarão
Eco no mundo, assim que andaremos
Límpidos e puros
Numa imortal caminhada na Plaza de Maio,
Com a tarde serena de Buenos Aires
Ao odor de café que emanara´ das vitrines...
Um dia não mais haverá apenas chão, distancia, medo.
Um dia como crianças, nos veremos.
E do sudeste do Brasil, te saudo este tango profético!
E riremos juntos de Don Quixote, Don Juan e dos mitos melancólicos.
E retornarão os dias de ternura, rodeado de palomas.

Bom Dia, Espanha! (trecho do livro)

Após os atentados em Madri...

"Hoje acordei pensando em fazer um poema sobre como forçar-se, por uma questao de sobrevivência, a ter esperanças. Caminhava pela rua Javier Dias, numa provincia qualquer da Argentina ...
E pensava fazer um poema "eu te forçarei, esperança".
Ainda sou capaz de sentir e parece que neste cavalo eu vou sozinho (talvez por uma razao cínica) inventar a esperança. Morrer por isso. Melhor que por nada..."

OS FRACASSADOS.

Depois da tarde em que um poeta do sul falava de sua obra, e malgrado sua simpatia e bons versos não vendeu, para uma platéia de não mais de meia dúzia de pessoas, sequer um livro, vou levar uma das participantes, atriz bonita mais desconhecida, com um ar blase´melancólico de quem sabe que é apenas uma criatura entre as criaturas e que nada vale muita ênfase ao ponto. Mostro-lhe meu livro mais na intenção de impressionar do que vender.
- Interessante. Mas tou sem dinheiro. Por que Você não busca fazer um grupo numa livraria qualquer? De repende tu arruma patrocínio. Bonito texto seu.
Olhos verdes. Pele clara. Disse que me escreveria. Quando seu ônibus chegou , perguntou se eu não iria. "Não. Vim apenas acompanhá-la." Senti que sua alma vibrou de gratidão e ternura. Eventos assim fazem que pessoas sensíveis se encontrem. Fiquei pensando que era bom que a civilização acabasse e restasse somente aquela meia dúzia de pessoas do evento. Uma gente mansa, discutindo arte poética, enquanto o inferno do mundo arde em toda parte. O poeta, acostumado a não vender e já com a fome saciada, parece ter entendido que aquelas seis pessoas não tinham dinheiro. Apenas interesse, inteligência e sensibilidade, o que resta de possível. Enquanto penso que vou voltar para meu abandono inadmissível, procuro acender um cigarro, o último do maço, um dos poucos prazeres que tenho tido, malgrado a propaganda de que os fumantes são débeis mentais. Temos que ter sáude para melhor contemplar os vitoriosos da espécie, com sua inteligência, seu poder e a violência no seu mundo de slogans perfeitos. Chego ao ponto e busco acender meu cigarro. Um rapaz, vendendor de bananadas, pede um. Digo-lhe que só tenho aquele. Pede para acender. Como aquele impagável fantasma do filme Ghost, também está doido por uma tragada. Consinto que ele acenda, desde que deixe comigo sua mercadoria, o que fez prontamente. Volta o cigarro aceso e ambos estamos felizes. Estarmos vivos, na noite fria, num aterro do flamengo deserto, o único prazer!
_ Quanto é a bananada?
- Dez centavos.
Compro-lhe duas.
- Como Você se vê num futuro ?- Pergunto-lhe.
- Po. Quero arrumar um emprego. Isso aqui não é vida não. Minha vida daria um livro. Tu não tem idéia. Fugi de casa com cinco anos por causa do meu padrasto. Hoje moro com uma muher. O Sr pode me dar mais um trago?
Passo-lhe o cigarro.
-Tem filhos?
-Eu não. Tenho 20 anos. Ela tem dois.
Acho bom Você ficar por ai, meu caro! Vai que não dá certo, já pensou?
-Não. Quero filho não.
-Olha. Já vou. Meu onibus vem vindo.
-Será que ele deixa eu entrar?
Deixa eu fazer sinal primeiro, defendi-me pensando que ele poderia fazer eu perder o ônibus. Sempre temos que estar em guarda no mundo civilizado, como na selva mais escura.
Entramos os dois. Passageiros silentes e melancólicos no fim da quinra-feira chuvosa.
- Boa noite, senhores passageiros! Desculpa incomodar o sossego de dua viagem. Trago bananada fresquinha, dez centavos.
Não reparei se ele vendeu mais alguma. Meus pensamentos estavam longe, na minha vida perdida talvez. Ou nos olhos verdes mansos e na pele clara da atriz. O vendedor senta ao meu lado.
- Quanto Voce ganha?
- Uns vinte reais.
- Dá pra tirar isso?
- Dá sim. De duas as dez. De manhã ninguém come doce, quer café, algo assim. Fico no máximo até dez horas.
- È. Mais acho bom Você estudar. Fazer um curso.
- De que?
- Sei lá. Faz mecânica de auto. Eletricidade. Todo mundo precisa de mecânico e eletricista. Você tem geladeira em casa?
Ele sorri, malicioso.
- Tenho. Tenho Televisão.
- Você gosta de televisão?
- Quem não gosta de televisão?
Na central do Brasil ele desce.
- Tchau, irmão!
- Tchau. Vai com Deus.
- Fica com Deus também.
Penso num lapso de ternura que o rapaz gostou de mim. Também o admiro. Não teria coragem de vender bananadas.
Volto ao meu silêncio e a meus temores. Não sei quanto tempo falta ainda o mundo acabar nas mãos dos felizes. Fico pensando que os salvos do mundo poderiam ser os fracassados que se encontram em eventos vazios, sem dinheiro nem armas. Atrizes e escitores sem trabalho. Ah, sim. E vendedores de bananadas. Enfim, os inofensivos. Comprei dois paezinhos e fui para casa com minha pobreza, depois de olhar por um bom tempo para os pães doces. Mais esses ficam para os felizes.

Entrevista: Elida Kronig

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