Angelino de Oliveira nasceu em Itaporanga, em 17 de junho de 1889, um ano depois de decretada a abolição da escravatura. Ainda menino, mudou-se para a cidade de Botucatu no interior de São Paulo. Era o princípio do século 20 e Angelino teria um primeiro exemplo musical, o porteiro da escola onde estudava, conhecido como Vicentinho. Era um flautista de primeira qualidade que encantava o garoto.
Em Botucatu, apaixonou-se de forma única pelas festas de junho. Não perdia uma comemoração de São João. Gostava de ficar ao redor das fogueiras, de ver a travessia das brasas, os desafios cantados e as danças típicas.
De todos divertimento
conheço também o baralho
conheço a viola e a pinga
prá cantá não faço ensaio
uns dizem que a pinga é da cana
outros "diz" que é do pau d'alho
dizem que a pinga derruba
como é que eu bebo e não caio.
Arrecebi um convite
pras festa do mês de maio
o meu pobre coração
garrou dá gorpe de táiio
abri o portão da mangueira
mandei dá milho prô baio
esperando meus colegas
sem eles chegá eu não saio.
Na de Santa Cruz eu fui
na de São João eu não fáio
eu levo meus companhêro
com eles não me atrapaio
eu não canto moda véia
eu não canto rebotáio
choro no braço da viola
que nem tangará no gáio.
Garrêmo pra noite escura
errando pelos atáio
coruja cantava triste
na grama já havia orváio
rojão explodiu pros ares
feito faísca de raio
lá no terrêro da festa
do seu Francisco Sampaio
Veio chá no caldeirão
e biscoito no balaio
serviu de fortificante
pros peito véio e fraio
dei um sinal pros colega
deram um balanço no assoáio.
Têia da casa caiu
não resistiu o chaquáio
Quando foi de madrigada Ai! Ai!
cantava dois papagaio
vi um gato de 3 côres
que não dormiu no borralho
Campeão cantou quatro moda
que aprendeu com nhô Mario
moda de enfrentar violeiro
mas prá nois não deu trabalho.
Anos depois, já vivendo em São Paulo, acostumou-se a fugir para Botucatu todo mês de junho em busca dos folguedos de sua infância. Como cita o violeiro Paulo Freire, em seu magnífico livro "Eu Nasci Naquela Serra", o tema aparece em diversas músicas de Angelino que escrevia poesias simples assim:
"Tem uma flor
Muito vermelha em meu sertão
Que floresce em mês de junho
Quando chega São João.
E a caboclinha do sertão, apaixonada,
Põe no peito uma florzinha
No alfinete pendurada..."
"E a lua lá do céu do meu sertão
Como criança vai brincando
Perseguindo algum balão
E a caboclada toda alegre e prazenteira
Ao redor de uma fogueira
Toca e canta uma canção..."
Angelino morou também em Ribeirão Preto por um bom tempo, onde cursou a Escola de Farmácia e Odontologia. Mas foi na cidade de Botucatu onde desenvolveu a maior parte da sua atividade musical, considerado o músico mais cultuado da cidade, embora outros tenham alcançado maior fama como Raul Torres e Antenor Serra, o Serrinha.
Segundo Fernando Pereira Binder, Angelino iniciou-se musicalmente na Banda São Benedito por volta de 1908. Além das celebrações religiosas das quais participava, ele animava retretas nas tardes de domingo e de apresentações populares nos coretos da cidade. Além de marchas ouviam-se polcas, valsas, tangos e mazurcas: gêneros de música de salão que causavam furor no início deste século.
Em 1911 ele integrava a orquestra do Grêmio Literário e Recreativo, clube criado pela elite botucatuense para incrementar as atividades sociais da cidade.
Angelino não foi só um simples poeta. Foi melodista e instrumentista dos bons. Estudou violino, violão e tocou trombone na banda de Botucatu, mas seu instrumento preferido era o violão. Um de seus grandes parceiros na vida e no palco era José Maria Peres, também violonista. Um tocava violão, outro guitarra, e conheceram o pianista e ex-padre Luís Cardoso, que se juntou ao duo. Virou trio. Vi-Gui-Pi: violão, guitarra, piano.
Tocavam em Botucatu, faziam sucesso também na estância de Poços de Caldas, em Minas Gerais, no famoso cassino Gibrinha, já fazendo parceria com o humorista Viterbo de Azevedo.
O cultivo de sua memória não alcança a grandeza de sua produção musical e poética. Poucos botucatuenses, paulistas e até mesmo brasileiros conhecem mais de 3 ou 4 músicas de Angelino, e foi isto que mais me chamou a atenção quando decidi ler sobre sua vida.
As antigas modas de viola eram cantadas de forma solene e traziam nas suas letras, a mais pura poesia construída a partir dos detalhes do cotidiano e do lugar de inspiração, na maioria das vezes real.
"Tristezas do Jeca", a música mais famosa, foi feita a pedido do presidente de um clube de Botucatu. Angelino resolveu falar sobre o apego do “Jeca” à sua terra natal. Aconteceu então o lamento belo, triste e apaixonado que transformou-se numa das mais belas modas da época.
É possivel imaginar a viagem de Angelino de Oliveira ao escrever o poema que deu origem à canção Tristezas do Jeca. Ele foi buscar razões no canto do sabiá, melodioso e verdadeiramente triste para dar a conotação necessária de uma solene revelação de amor, peculiar numa pequena cidade do interior paulista, onde o sentimento era externado de forma simples, romântica e singela, como revela a própria letra do que tornou-se um clássico que até hoje é grande sucesso da música popular brasileira. Maria Bethânia e Caetano Veloso, Zezé de Camargo e Luciano, Sergio Reis e outros artistas gravaram a música e com ela fizeram grande sucesso. Essa é a letra original da lindíssima canção que mais recentemente serviu de fundo musical do filme OS DOIS FILHOS DE FRANCISCO, numa versão lindíssima disponível no mercado.
Nestes versos tão singelos
Minha bela, meu amor
Pra você quero cantar
O meu sofrer e a minha dor
Sou igual a um sabiá
Que quando canta é só tristeza
Desde o galho onde ele está
Nesta viola canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade
Eu nasci naquela serra
Num ranchinho beira-chão
Todo cheio de buracos
Onde a lua faz clarão
Quando chega a madrugada
Lá no mato a passarada
Principia um barulhão
Nesta viola, canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade
Lá no mato tudo é triste
Desde o jeito de falar
Pois o Jeca quando canta
Dá vontade de chorar
E o choro que vai caindo
Devagar vai-se sumindo
Como as águas vão pro mar.
"Tristezas do Jeca" correu o mundo e chegou a ser ouvida, na Rússia, por um jornalista correspondente dos Diários Associados, o grande órgão de comunicação daquela época.
Mas o sucesso nunca significou prosperidade para Angelino que lutou muito para criar os três filhos. Ele jamais deixou o rádio. Lançou muitas duplas. Promovia também noitadas em bares e as músicas se sucediam. Angelino, sempre de cara fechada, um grande boêmio, tinha um coração simples e iluminado de típico caboclo.
A música acabaria inspirando Mazzaropi, que faz em 1961 o filme com o mesmo nome e tema. Fez sem pedir licença, mas depois pagou todos os direitos à Angelino.
Angelino de Oliveira morreu em São Paulo, aos 74 anos, em 24 de abril de 1964. Em homenagem a Angelino de Oliveira foi instituído, em 1967, o "Dia do Sertanejo", comemorado todos os últimos domingos dos meses de junho. Em 1982 foi instituída a semana "Angelino de Oliveira" que anualmente celebra-se na semana que inclui o dia 17 de junho. Existe na cidade de Botucatu a "Escola Estadual de Primeiro Grau Angelino de Oliveira", bem como uma rua com seu nome na Vila Nova Botucatu. Foi-lhe concedido o título de Cidadão Botucatuense em homenagem póstuma. Em Botucatu, um busto em praça pública o homenageia.
Pesquisa: Regis Caserta
Fonte: Fernando
Binder
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