Minha
trajetória no mundo das artes começou com a decoração
de interiores e desenhos de arquitetura. Criando plantas baixas para stands de
vendas de imobiliárias eu usava nanquim, ecoline (tinta de origem francesa
parecida com aquarela) e aquarela.
A aquarela me conquistou. Na verdade, me apaixonei.
A transparência, a luminosidade, a leveza e ao mesmo tempo a dificuldade
em dominá-la, me desafiavam e me faziam ficar horas e até dias mergulhada
nesse universo interessante e colorido.
É fácil entender minha admiração por William Turner (1775-1851), considerado o maior aquarelista de todos os tempos e que chegou a produzir aproximadamente 19 mil aquarelas.
Tempos depois senti a necessidade de conhecer outras técnicas e parti para o estudo da pintura usando outros pigmentos. O aprofundamento no estudo da história da arte foi super importante.
Conheci os “Grandes Mestres” das artes. Passei a entender o mistério e a beleza da união das formas e cores em todas as suas dimensões e como conseqüência vi surgir a minha opção na escolha do estilo a ser seguido.
Comecei como a maioria fazendo arte figurativa:
Vasos de flores, casarios, paisagens, marinhas e até retratos. Não
me sentia bem e copiar não me agradava, mesmo que comercialmente se tornasse
mais rentável.
Sempre surgia aquela triste frase: “Que lindo! Parece uma fotografia!!”...
que me deprimia. Notei que aquela não era a minha praia.
Embora, no mundo da arte acadêmica, alguns insistam em dizer que se você
muda algo aqui, algo ali, o trabalho se torna seu e deixa de ser cópia,
não me convenci.
Se eu quisesse uma imagem real de uma paisagem, por exemplo, eu usaria a arte
da fotografia, que considero fantástica. Mesmo que eu pintasse uma cena
de uma fotografia feita por mim, mesmo assim, continuaria sendo cópia,
achava eu, contrariando os adeptos do “olhar e pintar igual.”
Admiro profundamente artistas que atualmente ainda se realizam com pinturas figurativas
lindas. Bem que me esforcei, mas não consegui!
Caminhando nos estudos da história da arte me familiarizei com os “ismos”.
Expressionismo, impressionismo, abstracionismo, etc...
Todos os movimentos e todos os gênios de todos os tempos tiveram papel fundamental
para a arte de seu tempo e a contemporânea. Em cada uma dessas fases tivemos
artistas incríveis, com histórias maravilhosas e grande importância
na história da arte.
Quando
dei de cara com o Concretismo, tomei um susto.
”EPA! É isso aí!” Era a minha chance de usar o geometrismo
que usava no desenho de arquitetura, mas de forma livre.
Como trabalhar, leve, livre e solto com linhas, retas, curvas e elementos geométricos, que em princípio são formas limitadas?
Duvida? Experimentei e estudei essa possibilidade, somei aos estudos do mundo
maravilhoso das cores e iniciei uma viagem linda. Amei!
Alguém ainda pode exclamar: PARECE FEITO POR COMPUTADOR!!!!!!
Aí eu mereço!

Wassily Kandinsky (1866-1944) concluiu que uma obra não necessita de um motivo reconhecível
Ninguém terá a sensação de “viagens” por paisagens românticas, praias paradisíacas ou matas verdejantes, tampouco verá pôr-do-sol luminoso ou um amanhecer esplendoroso. Nada de mar sereno ou revolto ou barquinhos ao vento. Luas inspiradoras estarão fora. Vasos e arranjos de flores também não aparecerão desta vez. Nada em meus atuais trabalhos facilitará sua percepção através de conceitos pré-estabelecidos.
Fazer com que os olhos do espectador com relação ao trabalho não se satisfaçam em “OLHAR”... analisar as cores... identificar usando o seu conhecimento do mundo real... classificar... emitir sua opinião e seguir em frente.
O importante é que o apenas “olhar” se transforme em “VER”
e que seus olhos sintam a necessidade de percorrer cada centímetro do trabalho.
Quero que os emaranhados, desdobramentos, construções e desconstruções
das linhas curvas, retas e das cores cause, sim, estranheza e curiosidade. Quero
que o espectador siga com o olhar todas as formas e as cores que se repetem infinitamente
e/ou se entrelaçam num vai-e-vem, ora nervosas, ora serenas. Que esse comportamento
confunda (no bom sentido) os severamente metódicos, e instigue os demais.
Que o seu olhar e sua percepção escorreguem, saiam por um lado da
tela e voltem pelo outro lado, tentando achar o começo, meio e fim do trabalho.
Podem GOSTAR OU NÃO, mas certamente ficarão, mesmo que por alguns
instantes, tentando reorganizá-lo conforme seu conceito pessoal.
Acho cômico, intrigante, instigante e normal a tentativa que fazem alguns
espectadores quando querem mudar ou pôr ordem naquilo que lhes parece uma
escandalosa desordem ou causa uma certa estranheza. Tal comportamento diante de
trabalhos assim mostra de certa forma o interesse pelo que está sendo observado.
Quando se tenta mudar, organizar, alterar algo, certamente é porque a imagem
nos tocou por alguma razão e precisa, na nossa avaliação,
que seja modificado.
Na arte, nenhum conceito deve ser definitivo.
Sol Vilas-Boas
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