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Crepúsculo
Elida Kronig

Um mesmo espetáculo em dois movimentos contrários provoca sensações opostas.
Um pelo que está por vir. Outro pelo que se foi. Nada mais justo.

O último pedaço de sol será sorvido num pequeno pedaço entre o mar e a montanha no final da Barra da Tijuca.

A aura brilhante e ardente do sol definha aos poucos, preguiçosamente.
Surge uma sintonia invisível que faz diminuir o ritmo e o entusiasmo na platéia falante.
Todos os olhares serão dirigidos de tempos em tempos ao astro rei, único ator num cenário de intenso azul sem grandes enfeites. Não há críticas. Tudo é perfeitamente majestoso.

O papo evolui aos poucos em direção ao silêncio. A caminhada decrescente do círculo de fogo se aproxima do clímax.
A aura resume-se num transparente brilho branco. Vai perdendo a força aos poucos, consumida pelo próprio chão que lhe dá potência.

Restam alguns poucos murmúrios de conversa.

Por alguns instantes, de dentro da garganta dos pássaros, libertam-se gritos de alegria. São os anjos disfarçados em canto.

Ninguém fala. Os olhos seguem atentos todos os passos da natureza.

O círculo nítido sugou toda a aura imponente e mostra-se numa alquimia sem receita, como esfera de cobre afogueado, navegando do amarelo ouro ao vermelho-paixão.
Dessa forma, agradecido pelo sucesso do espetáculo, mergulha fundo no misterioso horizonte. Sai de cena deixando em brasa o azul intenso. Vai em busca do Autor da peça.

Este, em retribuição, agradece aos aplausos que saem em forma de paz do coração da platéia entorpecida, anotando calmamente seus desejos. Carimba pacientemente cada um deles com um pontinho de luz. Coloca-os em forma de estrelas no cenário instigante da noite. Alguns ainda suspiram...

O passado se fecha. Mais uma página é virada.
Um novo dia logo chegará, renovando a confiança num futuro de vitórias.

Respiro fundo. Fecho meus olhos devagar.
Numa fração de segundos, me torno mais forte, mais feliz.
Rezo pelos meus mais preciosos tesouros: a cumplicidade, a amizade e o amor.

Não dou por encerrado o meu dia.
Na reabastecida paz, suplico a Deus por meus inimigos.
Empacoto tudo. Entrego a Ele.

Fecho o livro. Termino a latinha gelada.
Junto minhas coisas e caminho à fonte de calor que absorvo entre meus braços.
Aninho meu corpo. Divido a sublime energia do coração.


Elida Kronig é cronista, contista, poetisa. E também carioca, geminiana e torcedora do America FC, como gosta de frisar.
elidakronig@litereart.org.br

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